Páginas

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Carta aberta a um amigo morto / um poema de anelito de oliveira





A Jair Alves Corgozinho Filho



Para alguns, foi só mais um ano que
Acabou em 2016. Para alguns, outro
Ano começou e segue em 2017.
Tudo voltará, já voltou, ao normal.

Para outros, foi o próprio mundo
Que acabou. Não foi apenas o ano.
Para outros, o mundo não existe
Mais. Para você, por exemplo.

No fundo do sol da solidão, ouço:
O mundo acabou para você! Mas,
Para quem era sua contraparte,
Já não existe tanto mundo aqui.

Sua morte altera a ordem objetiva
Das coisas – o que é vida? O que é
Morte? Tanto que tento, não só
Pensar, mas quebrar o silêncio sobre

Isso, sabendo que o silêncio puro,
Absoluto, não é quebrável. Tento
Falar de um modo impossível, além
De. Quase tudo restou impossível!

A margem sublime das coisas o
Movia, e você nos movia a partir
De lá, e continuará, como um menino
Barqueiro a nos mover neste rio-

Tempo onde tanto ríamos, sentindo o
Chiste das coisas mais sérias do mundo.
Nunca estivemos totalmente no mundo,
Nunca fomos o possível, o conhecido,

O permitido apenas que sustenta o
Mundo. As asas de anjo de um desejo
De “otredad” fizeram-nos voar como
O Karl de Wenders. O sonho radical

Libertou-nos da condição Naziazena
No mundo capitalista desmascarado
Por Dyonélio. A bicicleta de De Sica
Levou-nos ao infinito como verdade.

Recordá-lo, revê-lo, reouvi-lo agora
E não conseguir objetivar a sua morte
(talvez tudo não passe de ficção num
Mundo fantasioso) é já objetivar  sua

Vida, a vida que foi, em sua gravidade
Singular, naquela presença sutil,
Discreta, que era ausência como forma
De abertura solidária para o outro,

Ausência-porta de entrada de uma
Casamiga onde, chegando, ouvíamos o
Fervor humano de um artista da vida,
De um raro cuidador da “areté” dos

Momentos, um alquimista desejoso
De extrair luminosidades da matéria
Histórica mais bruta, e que assim nos
Deixava ébrios de pensada esperança.

Há, e haverá, a mesma saudade da sua
Voz, da sua dicção tão vivaz. Há, e
Haverá, o mesmo desejo de ouvi-lo
Mais altas horas lá no velho Malleta

Entre uma e muitas cervejas e todo
Aquele vozerio dissonante, o mundo
A mostrar-se como tal, desatinado, e
Nós ali encontrados na serenidade

Acolhedora que era você, sem que
(e como poderíamos sabê-lo?)
Pudéssemos cogitar que tão cedo
O mistério real se imporia como

Presença oca, profunda extensão,
Entre nós, instaurando uma instância
Mais enigmática, um transmundo,
Onde o silêncio é todo o sentido.




Ficcionista, poeta, ensaísta, pesquisador e professor de literatura brasileira, Jair Alves Corgozinho Filho faleceu prematuramente ano passado em Belo Horizonte. Era Graduado em Letras e Mestre em Literatura brasileira pela UFMG com trabalho sobre Dyonélio Machado. Atuou em várias instituições de ensino privadas na capital mineira. Foi Secretário Executivo da Revista Orobó nos anos de 1997, 1998 e 1999, periódico impresso que ajudou a criar, manter e difundir. Publicou ensaio e conto nos dois primeiros números da Orobó e em outros veículos. Não chegou a publicar nenhum livro solo, deixando toda uma produção significativa inédita nos vários gêneros que praticou. Dois dos seus ensaios, sobre Machado de Assis e Manuel Bandeira, estão publicados neste Kadernu. IMAGEM: Internet. 

3 comentários:

  1. Que texto leve-intenso. Lê-lo me fez perceber que estou certa em acreditar que a vírgula me serve e não o contrário.
    Sou grata por compartilhar essa presença oculta do seu amigo.

    Abç.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Manú, muito obrigado pela leitura. Abraço.

      Excluir
  2. Um poema incrível e também é incrível a sintonia, pois eu sempre penso na "condição Naziazena", desta que é minha obra preferida, e falava dela ainda ontem. Parabéns pelo texto e pela amizade. Sinto pela partida do amigo. Abraço!

    ResponderExcluir