Páginas

domingo, 28 de março de 2021

Cinco poemas de Sidneia Simões



Peleja

 

Todo dia é segunda-feira,

e não sei como começar.

A poesia não chega.

Ensaio e me distraio

e me retraio e nada.

Não consigo capturar.

Capitulo, engolindo seco.

A poesia me olha

e tenta me captar,

a conta-gotas,

em tudo quanto há.

 

A poesia tem porta aberta,

e me acanho e me assanho,

mas não consigo entrar.

Faço reverência.

Digo que volto.

Dou voltas.

A poesia está.

Eu é que preciso (me) encontrar.

 

Gosto de infância

 

A infância me veio à boca,

doce e amarela, em linhas,

uma, duas, várias vezes.

Tem caroço

e nem quero moço;

só a mangueira,

os pés de galho em galho,

pisa aqui, segura ali

até mais alto,

onde só chega

quem sabe ser pequenino.





(Des)ilusão

 

Ficou à espreita

de algum fato,

algo inusitado,

sonho encantado.

 

Restou estreita...

ausente, renitente,

ignorou presente -

tempo premente.

 

A vida, um vão,

querendo longe,

perdeu o bonde,

sem nunca ter tido

o que estava à mão.

 

(In)quietude

 

Se doeu, amargou, sangrou,

aquiete-se.

Quando se está mais sem lugar

é que o infinito acontece.

 

Apontamentos

 

Pronta pra morrer,

assim, já  posso viver.

Sem apego, nem desapreço,

tudo na medida que é,

no ponto do instante -

não menos, nem além,

nada exato, matemático.

A vida em fogo... brando?

Olhai os lírios e os campos!

Contemplai réus e santos!

Todo juiz tem seu manto,

tudo flui em jogo manco,

em canto, pranto e espanto.

Há quem chega num piscar,

outros tardam o alcançar.

- Se há saída? Só navegar!

 






Sidneia Simões é uma das vozes poéticas potentes que despontaram nos últimos anos em Minas Gerais. Estreou em 2019 com o livro Desarmadilha, coletânea de poemas simples, objetivos e intensos, marcados por uma sensibilidade sóbria que nos remete a Henriqueta Lisboa. Além de se dedicar há muito ao ofício do verso, Simões é atriz, jornalista e empreendedora cultural responsável, no momento, pelo espaço Casa da Floresta em BH, dedicado a exposições artísticas e processos de formação. As imagens são pinturas da também mineira Marina Nazareth, uma das maiores artistas em atividade no país, nascida em 1939, dona de uma obra que,  intensificando aquisições do Impressionismo e de tendências do início do século XX, como o Fauvismo, destaca-se como uma das poucas referências ainda da arte de pintar no espaço contemporâneo (http://marinanazareth.com.br/pinturas/).