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sábado, 26 de junho de 2021

Um conto modernista de 22 de Jairo Fará



O pentágono


           

Belo Horizonte era uma nova cidade, onde todos eram de fora. Em 1920, a cidade tinha pouco mais de 20 anos. A família tinha vindo de Campanha, o pai era funcionário público. O filho mais velho, Robson, seguia o caminho do pai, que com apoio de políticos o havia empregado na Secretaria de Agricultura. Fernando, o mais novo, era poeta, e escrevia para o Diário de Minas, recebendo um salário insignificante.

O mais velho conheceu uma mulher separada, o que era um escândalo para a época. Leda, tinha 26 anos, um ano a mais que Robson, e hábitos bem refinados. Procurava se vestir como as moças francesas, e tinha uma coleção de corpetes. Lia o que havia de melhor da literatura, inclusive livros eróticos. Estes lidos escondidos, quando sua mãe dava os cochilos da tarde.

Robson desfrutaria dos prazeres da vida com Leda. Como ela não era virgem, não havia culpa em fazer sexo. A maneira elegante de vestir de Leda servia como disfarce para sua forma livre de ser. E ela não se importava de ir para as casas dos amigos de Robson, que facilitavam bastante os encontros amorosos. Para Robson, a única dificuldade era pagar o champagne que Leda considerava essencial, até para as brincadeiras de amor.

Ele era um admirador pobre, não teria como bancar os caprichos de Leda. Mas poderia viver muitas aventuras com ela. Que renderiam muitos contos para o irmão escritor de histórias que...

Fernando, o irmão mais novo seria fisgado por Tatiana, uma linda moça de 22 anos, um ano mais nova que ele, que achava que havia nascido para se tornar uma santa. E isso em sentido literal. Tinha sonhos em que ela havia sido canonizada e vivia para ajudar as pessoas. Algo bonito, mas que a fazia pensar que não deveria se casar. O poeta também pensava que precisava da liberdade de poeta, inclusive a liberdade para morrer cedo por uma vida boêmia.

Ele dividia seu tempo com os contos que escrevia para o Diário de Minas, seus poemas, amigos, boemia, e a angústia de não se dedicar à militância anarquista. O máximo que fazia era beber muito com seus amigos anarquistas, e dois ou três poemas utópicos resultantes destas noites. No mais, sua literatura queria liberdade.

 






À noite era comum encontrar com seus amigos escritores no alto do Viaduto Santa Tereza para longas conversas sobre a literatura e a vida, ou vice-versa.






 

Num evento de artes plásticas, com a presença de pintores cariocas e paulistas, Fernando foi convidado para ler seus poemas. Foi visto por Tatiana. Ela ficou confusa, sentiu algo estranho. A sensação que tinha era de que o poeta a havia transportado para um mundo novo. Algo que transcendia sua compreensão. Que ela precisaria rezar muito para esquecer. Fernando não havia notado nada.

Enquanto isso seu irmão Robson vivia muitas loucuras de amor com Leda. Mas o gozo só era completo depois que os dois liam juntos o conto que seu irmão Fernando havia escrito, baseado na última aventura de amor. Era um triangulo amoroso: Robson, Leda e a literatura. Todos os três personagens com igual importância. Mas com o tempo a literatura foi se tornando o centro, ganhando destaque, crescendo, envolvendo os dois.

Já Fernando parecia não ter muita sorte no amor. Até que teve a oportunidade de conversar com a linda Tatiana. Foi uma conversa de horas e horas, que não havia como parar. Os dois não viam o tempo passar, o anoitecer, o frio chegar. Mas foi apenas uma conversa. Afinal Tatiana achava que seria uma santa. Por isso, de repente, ela saiu apressada para casa, preocupada com o horário.

Daí começou uma amizade. Ela começou a ler os poemas de Fernando, sempre maravilhada. Até que um dia, ele passa para ela os contos...

Foi a ampliação do triângulo amoroso. Mediados pelos contos se formou um pentágono amoroso: Robson e Leda – contos – Fernando e Tatiana. Mas os dois últimos entravam como leitores e imaginadores na relação. Ela ainda estava convicta a virar freira, acreditava que no convento esqueceria as histórias de Fernando.

No entanto, agora era Leda que escrevia contos criando encontros amorosos cheios de fantasias entre Fernando e Tatiana. E depois os passava para Fernando.

Num dia, com maior ousadia, Fernando desafiou Tatiana. Fez uma aposta. “Se atravessar os arcos do Viaduto de Santa Tereza por cima, você me dá um beijo.” Como Tatiana achava isso impossível disse “claro”. E perdeu aposta... Além disso, ganhou de Fernando os contos proibidos escritos por Leda, que não podem ser revelados aqui, afinal, caro leitor, você não faz parte do pentágono amoroso...








Jairo Fará é um dos notáveis passantes da cena artístico-literária mineira em ebulição. Multiartista, transita com desenvoltura modernista, risonha, pela poesia verbal e visual, pelo cinema, pelas artes plásticas e pela perfomance. Estreou em 2011 com os poemas brincantes de O ovo do minerim pela Jararaca Edições, quando ainda assinava "Jairo Faria". Desde então, vem publicizando suas produções constantemente no impresso, em galerias e no virtual sob o nome de "Jairo Fará" numa demonstração de intensa atividade criativa. Seu último trabalho, divulgado pelas redes sociais, é Papelão social, um livro-objeto com evidente potência crítico-política, traço distintivo do autor. A imagem anônima é representação do viaduto de Santa Tereza em BH sobre cujos arcos o jovem Drummond gostava de se equilibrar nos anos 1920.  






domingo, 4 de abril de 2021

Seis poemas de Raimundo Carvalho






Pássaro-menino:

Da janela me capturo,

Passado e futuro




*



Ikebana

Mãe, noite de inverno,

Em nosso jardim,

Flores, de sereno

úmidas, colhi.

 

Num jarro de vidro,

Dispus: oferenda

ao deus que, aos meus dias.

Os teus acrescenta,

 

Dando à minha vida

Dimensão do eterno,

Neste instante único,

 

Em que te vislumbro,

Cristal transparente,

refratado em mim.

 







*

 


Hino a Iemanjá

 

Senhora dos Navegantes,

Rainha e estrela do mar,

Minha mãe Afrodite,

Minha afrodeusa,

Senhora Iemanjá.

 

Récif... Écume... Étoile

 

Ave cheia de graça,

É amaro viver na terra,

É doce morrer no mar!

Odoyá...

 

Odoyá,

Perdoa esse caboclo,

que arranha o francês,

mas não sabe Iorubá.


 

*



Seara que se ara à meia?

Não me aprazem os poetas,

senhores da dor alheia,

Mas só aquele que sulca

a própria dor e a semeia.







 

*



De norte a sul; de leste a oeste,

(O poeta apressado se esquece!)

A poesia surge da prece.

 


*


 

Cabeça de peixe

 

Nada quebra o silêncio da cozinha,

onde, de noite, me lambuzo, dedo

e língua, e esquadrinho as guelras

e as mandíbulas de um tremendo peixe,

restos de uma moqueca  que almocei

ao meio-dia,  postas sobrepostas

à cebola e tomate.   Entre camadas,

a cabeça do peixe se escondia

na panela de barro, quente à beça.

 

Nada quebra o silêncio da cozinha,

quando, parece que , ofegante ainda,

afronta, barbatana em riste, as verdes

ondas de azeite, cebolinha e coentro

- maré de colorau -, mar de  sargaço;

nem,  ao romper do crânio da carcaça

as placas laterais, rumor algum

 interrompe a sucção do muco e, tácita,

sua arcada dentária se arreganha.

 

Nada quebra o silêncio da cozinha,

enquanto sugo com cuidado cada

osso.  Esse aqui é das narinas, sinto,

e um leve som do oco de ocarina,

entre os meus beiços sai, nota monótona,

fragmento de uma música marinha,

ecoando o coro de corais longínquos.

Ah! essa cartilagem é do  ouvido,

e como vibra o mar no céu da boca!

 

Nada quebra o silêncio da cozinha,

nem mesmo quando no palato gruda-se

a lente de contato que recobre

o seu globo ocular, ásperas pérolas

que a minha gula não engole, mas

a mente devaneia:  o que esses olhos

de peixe morto viram (hipocampos

 e sereias?) no mar azul-turquesa,

antes de verem, num  anzol , a isca?

 








Raimundo Carvalho (1958) nasceu em Pirapora-MG. É professor da Universidade Federal do Espírito Santo desde 1993, onde leciona Latim e Literatura. Publicou Sabor Plastico (1983), Catábase (1989), Brinde (1990), Conversa com o Ciclope (1997) e Língua impura (2019), poemas. Publicou também Murilo Mendes: o olhar vertical (2001), ensaio crítico, Circo Universal (2000), com o qual ganhou o prêmio de Melhor livro infantil na categoria informativo da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, e Balada do Velho Chico (2017) pela Autêntica. Traduziu as Bucólicas de Virgilio (2005), algumas odes de Horácio e vem traduzindo as Metamorfoses de Ovídio. As imagens são de Ismael Nery (1900-1934), inventor do "essencialismo", artista de trajetória-relâmpago, amigo-irmão de Murilo Mendes, ponto fora da curva do modernismo brasileiro ainda a ser percebido em sua estrangeiridade inquietante.

 

domingo, 28 de março de 2021

Cinco poemas de Sidneia Simões



Peleja

 

Todo dia é segunda-feira,

e não sei como começar.

A poesia não chega.

Ensaio e me distraio

e me retraio e nada.

Não consigo capturar.

Capitulo, engolindo seco.

A poesia me olha

e tenta me captar,

a conta-gotas,

em tudo quanto há.

 

A poesia tem porta aberta,

e me acanho e me assanho,

mas não consigo entrar.

Faço reverência.

Digo que volto.

Dou voltas.

A poesia está.

Eu é que preciso (me) encontrar.

 

Gosto de infância

 

A infância me veio à boca,

doce e amarela, em linhas,

uma, duas, várias vezes.

Tem caroço

e nem quero moço;

só a mangueira,

os pés de galho em galho,

pisa aqui, segura ali

até mais alto,

onde só chega

quem sabe ser pequenino.





(Des)ilusão

 

Ficou à espreita

de algum fato,

algo inusitado,

sonho encantado.

 

Restou estreita...

ausente, renitente,

ignorou presente -

tempo premente.

 

A vida, um vão,

querendo longe,

perdeu o bonde,

sem nunca ter tido

o que estava à mão.

 

(In)quietude

 

Se doeu, amargou, sangrou,

aquiete-se.

Quando se está mais sem lugar

é que o infinito acontece.

 

Apontamentos

 

Pronta pra morrer,

assim, já  posso viver.

Sem apego, nem desapreço,

tudo na medida que é,

no ponto do instante -

não menos, nem além,

nada exato, matemático.

A vida em fogo... brando?

Olhai os lírios e os campos!

Contemplai réus e santos!

Todo juiz tem seu manto,

tudo flui em jogo manco,

em canto, pranto e espanto.

Há quem chega num piscar,

outros tardam o alcançar.

- Se há saída? Só navegar!

 






Sidneia Simões é uma das vozes poéticas potentes que despontaram nos últimos anos em Minas Gerais. Estreou em 2019 com o livro Desarmadilha, coletânea de poemas simples, objetivos e intensos, marcados por uma sensibilidade sóbria que nos remete a Henriqueta Lisboa. Além de se dedicar há muito ao ofício do verso, Simões é atriz, jornalista e empreendedora cultural responsável, no momento, pelo espaço Casa da Floresta em BH, dedicado a exposições artísticas e processos de formação. As imagens são pinturas da também mineira Marina Nazareth, uma das maiores artistas em atividade no país, nascida em 1939, dona de uma obra que,  intensificando aquisições do Impressionismo e de tendências do início do século XX, como o Fauvismo, destaca-se como uma das poucas referências ainda da arte de pintar no espaço contemporâneo (http://marinanazareth.com.br/pinturas/).

sexta-feira, 19 de março de 2021

Um poema transpandêmico de João Diniz

 DESVIO DO JÁ

 


1

 

não leia

não leia isso

fadado ao altivo

indiferente olhar 

 

esse texto 

quase inexistiu 

mas quis ser vivo

recusou ser omisso 

 

esse dito não há

é só um desvio do já

 

2

 

calor pio mugido

lidas no bafo da brisa

letras passarinham retinas

sentença revoa na sombra

 

estória pousa

no piscar sonolento

 

livro salta da mão 

onírico verso da pausa

cabeça pende ao papel

e a tarde ígnea escurece

 

como inexistente lenda

esse dia nasceu no ocaso

 

3

 

subitamente

página é espelho

 

refletido olhar 

cruzando o brilho 

invertida palavra

especular sentido 

 

chutando rimas

pisa parágrafos

desafia sílabas

acentos evita 

 

o atalho da virgula

adentra o cristal 

descobre o que diz 

num relato falho  

 

alfabética luz 

revela um conto

piscante sentença  

sem ponto final

 





 

4

 

aguarda o pedido 

imagina o romance

no retardo postal

antecipa a leitura

 

livro ausente

supõe um poema

ditos sem data 

soletradas horas

 

batidas na porta 

cessam o hiato   

rasgado embrulho 

o volume acontece 

 

5

 

trova verso 

rima estrofe

suave segura 

piegas irada

 

soneto balada

quarteto cantiga 

solene ungida

carente amada 

 

salmo protesto 

elegia louvação 

tímida vaidosa 

moderna alterada 

 

leitura sussurro 

blasfêmia oração 

chorosa arisca 

maldita gritada

 

nenhuma fala

propõe mais poesia 

que o primeiro risco

da obra que inicia

 

6

 

somente a semente

materna da árvore 

desenha a folha 

um pincel 

 

através do tronco 

numa vida futura 

sucede a madeira 

o papel 

 

do pensamento 

decola a ideia  

pousando no plano

ditado

 

o quase não lido 

que aqui foi colhido

é fértil silêncio 

falado 







Artista múltiplo de rara inquietação, João Diniz é belo-horizontino nascido em Juiz de Fora, cidade do inventor Murilo Mendes. Arquiteto atuante com seu escritório de projetos, professor universitário e palestrante, JD publicou os livros João Diniz Arquiteturas (2002), Depoimento: Circuito Atelier (2007), Steel Life: arquiteturas em aço (2010), Ábaco(2011), Aforismos Experimentais (2014) e, ano passado, o surpreendente O Livro das Linhas. Participa de edições impressas, fonográficas e audiovisuais, exposições e apresentações voltadas à arquitetura, fotografia, poesia, vídeo, artes visuais, design, música e desenho. Criou e coordena o instigante projeto Pterodata, ações interdisciplinares com outros autores movidas pela ideia de JD de uma transArquitetura. "Desvio do já" foi produzido recentemente em situação de isolamento social, exemplo notável de resistência com, pela, na poesia, um poema transpandêmico que denuncia o nosso mal-estar num tempo tão angustiante. Os desenhos são do próprio artista.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Clarice centenária

 Os movimentos da Medusa 

KATYA QUEIROZ ALENCAR






No centenário de nascimento de Clarice Lispector, comemorado no último 10 de dezembro, a nossa homenagem se dá aqui na forma de um comentário ao movimento estético-literário de uma das mais intricadas obras dessa esfinge da literatura brasileira, a novela  Água viva, classificada pela própria autora e também pela maioria dos críticos apenas como um livro de ficção. Nem pintura nem escrita, mas escrita-pintura, ou vice-versa. 

A obra, publicada pela primeira vez em agosto de 1973, configurou-se depois de muitas revisões feitas pela escritora. Alexandrino E. Severino, no artigo “As duas versões de Água viva” (1989, p. 115-118), divulgado pela revista Remate de Males, afirma que inicialmente a obra foi intitulada “Atrás do pensamento: monólogo com a vida” e possuía na época quase 280 páginas. Depois, teve o título substituído por “Objeto” e, em seguida, por “Objeto gritante”. Depois de um ano, Lispector  aprimorou ainda mais o texto, diminuindo o “Objeto gritante” de 150 para 100 páginas e lhe dando um novo título: “Água viva”. 

Nessa ficção clariciana, a linearidade das ações no enredo é sincopada por inúmeros elementos metaficcionais e autoficcionais. A protagonista exerce, além da função de narradora, a de personagem-pintora e também autora-personagem. Em ambas as funções, promove um jogo dialógico com um Outro (“tu”) externo e diferente. Trata-se de um “Tu-eu” em diálogo-monólogo consigo mesmo, ou seja, um “eu” em intersubjetividade com um “tu”, que é, por conseguinte, o “Outro” desse “eu-narrador” tal qual no mito [1] grego de Narciso - o sujeito que contempla o seu próprio reflexo no espelho d’agua.

Água viva foi o sétimo  livro em prosa de Clarice Lispector,  edição lançada pela editora Arte Nova e, conforme Severino (1989, p. 115), tanto essa edição quanto o seu protótipo fundamentaram-se na busca pela palavra como tentativa de contato entre o cognoscível e o inefável "it" [2]. Esse termo, usado pela narradora de Água viva, está ligado à ideia de “mistério do impessoal” ou de “A transcendência em mim [...]” (Lispector, 1998, p. 19). A narradora diz que esse termo é “duro como uma pedra seixo” ou “mole e tem o pensamento que uma ostra tem” e conclui: “O it vivo é o Deus” (Lispector, 1998, p. 19).

Desde o ano de 1943, com a publicação de seu primeiro romance no Brasil, Perto do coração selvagem, Clarice Lispector passou a ser referência no cânone nacional. A estreia de Lispector, na década de 1940, foi marcada por uma proposta inovadora de experimentação estética na prosa, uma tendência literária que viria a se consolidar no Brasil somente a partir da década de 1950. Apesar de didaticamente pertencer à terceira geração de modernistas brasileiros, a escrita de Lispector, especialmente em Água viva, apresenta-se com tamanha fluidez e peculiaridade que pode ser revisitada e analisada a partir de múltiplas perspectivas crítico-teóricas,  inclusive as mais  recorrentes nos estudos contemporâneos.

 O termo “Água-viva”, no campo da Zoologia, nomeia um ser marinho, porém escrito com hífen, designando um animal aquático, translúcido, em forma de guarda-chuva, possuidor de tentáculos cobertos por células urticantes e causadoras de reações alérgicas a qualquer corpo estranho que o toque. Ao associar-se a imagem da água-viva animal com a Água viva (sem hífen) de Lispector, é possível perceber nesse livro, metaforicamente, uma característica da própria literatura praticada pela autora de Perto do coração selvagem. 

A palavra “água” – substância química (H2O) que tem por propriedade a liquidez , o aspecto incolor, insípido e inodoro; essencial para a vida da maior parte dos organismos vivos; e, ainda, importante solvente para muitas outras substâncias – agrega-se ao adjetivo “viva” que, comumente, pode ser associado a tudo que é animado ou está em movimento dinâmico. A junção dessas duas palavras, como título do livro, permite a seguinte dedução: a água, mesmo sendo insípida, é solvente e dinâmica, assim como a vida e a própria escrita literária de Lispector.

Concomitantemente, a metáfora da ambígua imagem da Medusa, análoga à literatura em Água viva, tanto pode ser percebida como um animal marinho a se locomover pela liquidez das escritas do mundo quanto, tragicamente, como a medusa mito[3], seduzindo o leitor para uma impactante, petrificante e também urticante sensação de estranhamento, já que especula, ficcionalmente, os mistérios em torno da linguagem, da vida e do ser. 

O leitor de Água viva, assim como Perseu no mito da Medusa, se almejar vencer a escrita dessa ficção clariciana, deve olhar o texto pelas lacunas do “não dito”, pelas ambiguidades presentes, assim como pelo contínuo no descontínuo (espelho indireto), a fim de conseguir superar o inicial estranhamento e apreender o que está por trás do pensamento clariciano, da superfície dessa ficção. 

Ao mergulhar nas águas da escrita de Lispector, o leitor precisa considerar a imprevisibilidade de um tipo de “texto-instalação”[4], cujo requisito de leitura é a sensorialidade do corpo reconfigurado plasticamente pela escritura. Ao contrário do que parece à primeira leitura, Água viva não é um texto enfadonho, mas glamoroso, justamente pelas suas singularidades e ambiguidades, ora pintura ora escrita, ora musa ora medusa, ora espacialidade gráfica ora temporalidade pictórica. Como afirmado pela própria narradora, Água viva é “um ovo quente” que queima e, por isso, é uma obra que não pode ser definida e categorizada, pois nasceu para ser mutável, já que é um texto que passa de mão em mão, como se trouxesse uma escrita urticante.

Além dessas características, a ficção evidencia nessa narrativa a metáfora do cavalo, alusiva ao ato mesmo de narração. A escrita, como diz a narradora, galopa tal qual  um cavalo fogoso, nobre e alegre: “ Mas não sei como captar o que acontece já senão vivendo cada coisa que agora e já me ocorra e não importa o quê. Deixo o cavalo livre correr fogoso de pura alegria nobre.” (Lispector, 1998, p. 50).  

Benedito Nunes  (1995, p. 158-159), ao analisar Água viva, afirma que não se trata de um recado de ideia, muito menos uma confissão. É um texto que almeja transformar-se em uma gestualística sonora, já que o que é mostrado está no não dito, decantado nas entrelinhas: sentimentos, busca pelo âmago de tudo, expressão do halo dos objetos, exercício dos limites da experiência verbal, que não se isenta de palavras. A perspectiva pessoal, presente nesse texto clariciano, para o crítico, ao transbordar no impessoal, gera um modo de escrever agônico como efeito.

Da ausência de história fica, ainda conforme o crítico paraense, somente a resistência patética e dramática da busca de conexão entre o orgânico e o espiritual, entre a vida e a morte. 

Em relação à metáfora do cavalo, Ítalo Calvino  a associa ao ritmo escritural, afirmando que provavelmente foi Galileu Galilei [5] quem primeiro usou essa metáfora para designar a velocidade da mente. Isso porque, para Galileu, o ato de discorrer (discurso) era similar ao de correr, associando-se a velocidade física à velocidade mental: “a rapidez, a agilidade do raciocínio, a economia de argumento, mas igualmente a fantasia dos exemplos são para Galileu qualidades decisivas do bem pensar” (Calvino, 1991, p. 56). 

Todavia,  a velocidade mental não pode ser medida e nem comparada, pois  vale por si mesma. Logo, “a função da literatura é a comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando, mas antes exaltando a diferença, segundo a vocação da própria linguagem” (Calvino, 1991, p. 58). A rapidez de estilo e de pensamento quer dizer, antes de tudo, agilidade, mobilidade, desenvoltura, qualidades essas que são combinadas com uma escrita que tende às divagações saltitantes de um assunto para outro. Isso, ainda segundo o autor das Seis propostas para o próximo milênio, faz com que o narrador perca o fio do relato para reencontrá-lo ao fim de inumeráveis circuitos de palavras.

 A escrita de Água viva se movimenta oscilando entre a poesia e a prosa, em um ritmo singular de propulsão literária, ou seja, a partir de instantes epifânicos da narradora que dão impulso à narrativa. Mesmo discorrendo como um cavalo fogoso, numa recorrência ao chamado "fluxo de consciência" [6] , a narrativa apresenta outro movimento que pode ser associado ao da medusa animal, cujo impulso para frente exige um retroceder para trás, promovendo um intercâmbio entre dois ou mais corpos de escrita. 

Nesse sentido, velhas escritas entram em atrito esteticamente com novas escritas na obra. O ritmo é ascendente e descendente, revelando momentos de explosões figurativas da vida, evidenciando pontos longínquos de espaço e de tempo limitado e também ilimitado, em que se apresenta recolhimento introspectivo e silencioso (morte simbólica) de quem narra.

Como a narradora afirma, ela sabe histórias antigas que se renovam sob sua pena e, metaforicamente, fala sobre isso: 


Sei história passada mas que se renova já. O ele contou-me que morou durante algum tempo com parte de sua família que vivia em pequena aldeia em um vale dos altos Pirineus nevados. No inverno os lobos esfaimados desciam das montanhas até a aldeia a farejar presa. Todos os habitantes se trancavam atentos em casa a abrigar na sala ovelhas e cavalos e cães e cabras, o calor humano e calor animal – todos alertamente a ouvir o arranhar das garras dos lobos nas portas cerradas. A escutar. A escutar. Estou melancólica. É de manhã. Mas conheço o segredo das manhãs puras. E descanso na melancolia. (Lispector, 1998, p. 35).

 

Esse ritmo que alterna a narrativa com a introspecção é consolidado por uma ficcionalização corporal e orgânica da vida sensorializada (bíos), sem nenhuma pretensão inicial a ser verossímil. Como um mar revoltoso, o texto de Lispector revolve a areia decantada, fazendo com que traços do gênero lírico dialoguem com o dramático, sem um limite rígido, pois, como afirma Calvino: “Escrever prosa em nada difere em escrever poesia, em ambos os casos trata-se da busca de uma expressão necessária, única, densa, concisa, memorável” (Calvino, 1991, p. 61). 

Em Água viva, simula-se que qualquer forma pode ser viva, pois há objetos estáticos que são animados por significados poéticos na obra. Ao pintar um tema, como afirma a narradora, um objeto é criado. Nota-se que a expressão descritiva desse objeto tem um ritmo, um modo sensorial. Como exemplo, vemos o tratamento do objeto guarda-roupa repetidas vezes: 


Mas eu também quero pintar um tema, quero criar um objeto. E esse objeto será – um guarda-roupa, pois que há de mais concreto? Tenho que estudar o guarda-roupa antes de pintá-lo. Que vejo? Vejo que o guarda-roupa parece penetrável porque tem uma porta. Mas ao abri-la vê-se que se adiou o penetrar: pois por dentro é também uma superfície de madeira, como uma porta fechada. Função do guarda-roupa: conservar no escuro os travestis. Natureza: a inviolabilidade das coisas. Relação com pessoas: a gente se olha ao espelho da parte de dentro de sua porta, a gente se olha sempre em luz inconveniente porque o guarda-roupa nunca está em lugar adequado: desajeitado, fica de pé onde couber, sempre descomunal, corcunda, tímido e desastrado, sem saber como ser mais discreto, pois tem presença demais. Guarda-roupa é enorme, intruso, triste, bondoso. (Lispector, 1998, p. 58).

 

O guarda-roupa, matéria-prima apreendida pelo olhar da narradora, é modelado pela sensibilidade clariciana. A narradora insere o objeto em seu "fluxo de consciência", atribuindo-lhe funções e qualidades inerentes ao humano, possivelmente como tentativa de humanizar a coisa. O inanimado é chamado para o animado, personificado por características comuns ao humano, como intruso, triste, bondoso. Muitas passagens da obra repetem esse procedimento em Água viva: 


E o tigre? Não se pode agradecer. Então eu dou umas voltas vagarosas em frente à pessoa e hesito. Lambo uma das patas e depois, como não é a palavra que tem então importância, afasto-me silenciosamente. (Lispector, 1998, p. 61).  


Quanto à suculenta flor de cactus, é grande e cheirosa e de cor brilhante. É a vingança sumarenta que faz a planta desértica. É o esplendor nascendo da esterilidade despótica. (Lispector, 1998, p. 41). 

 

Lispector é econômica com as palavras e frases, suas imagens não se apresentam em  cadência de sinuosidade e  harmonia, mas, ao contrário, o compasso do texto é agressivo e sincopado pelas justaposições e multiplicidades de figuras do mundo que agregadas em tumulto num só lugar. A maioria dessas imagens é reconfigurada na ficção, passando a adquirir sentidos de vagueza abrupta e dramática, sensorializadas e subjetivadas pelo “eu” narrador. Percebe-se nessa circularidade estética a ambiguidade e a dramaticidade, bem como uma aliança paradoxal entre a precisão (modo como a narradora capta e descreve as sutilezas dos detalhes dos instantes do mundo) e a indeterminação como  esses instantes repercutem na subjetividade da narradora.

 Calvino (1991, p. 72-75), ao falar sobre a virtude da exatidão como um dos elementos importantes a serem conservados pela prática literária, defende que muitas vezes o vago é o que é mais preciso, ou seja, é possível colher a sensação mais sutil com olhos, ouvidos e mãos prontas e seguras. Para ele, “a procura do indeterminado se transforma em observação da multiplicidade, do fervilhar, da pulverulência”. A exatidão se revela à medida que o  autor diz  o mínimo possível, mas também à medida que emenda palavras e frases a fim de minimizar  razões de insatisfação no uso que faz das palavras na construção do texto. É importante que não se extinga “toda a centelha que crepite no encontro das palavras com novas circunstâncias [...]. A literatura – quero dizer, aquela que responde a essas exigências – é a Terra Prometida em que a linguagem se torna aquilo que na verdade deveria ser” (Calvino, 1991, p. 72).

Em Água viva, o efeito da entropia do dito e do não dito, num movimento oscilante entre o olho que vê e o espírito que registra poeticamente, acaba por gerar desarticulações sintáticas e figurativas, ameaçando, algumas vezes, as zonas de ordem lógica, já que da expressão figurativa passa-se para o nível da abstração e alegoria. Todo esse compasso de transversalidade de temáticas e formas leva o texto clariciano a se comportar como uma estranha literatura, densa e ao mesmo tempo translúcida, tal qual a medusa animal que, por propulsão, avança para as águas do mundo, mas também – e ao mesmo tempo – tem a liberdade de se movimentar nas profundezas dos oceanos, zonas do inconsciente.

  

REFERÊNCIAS


Severino, A. E. (1989). “As duas versões de Água viva”.  Remate de Males, Campinas, n. 9, p. 115-118.

Lispector, C. (1998). Água viva. Rio de Janeiro, Rocco.

Calvino, I. (1991). Seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso. São Paulo, Companhia das Letras.

Nunes, B. (1995). O drama da linguagem. São Paulo, Ática.



NOTAS



[1] No límpido e tranquilo espelho das águas da fonte de Téspias, Narciso contemplou a sua própria imagem. Conta o mito que ele, apaixonando-se pelo próprio e belo reflexo, permaneceu eternamente preso naquele local.

[2] O crítico Evando Nascimento, no livro Clarice Lispector: uma literatura pensante (2012, p. 40), afirma que o it em Água viva é a marca neutra que “enfatiza a rasura do ser da pessoa humana em prol de algo fronteiriço entre o vivo (o bios) e o não vivo”.

[3] Na mitologia grega, a Medusa era uma das filhas de Fórcis e Ceto (divindades marinhas);ela e suas irmãs Esteno e Euríale constituiam as três Górgonas. Conta a lenda, que a Medusa era uma linda mulher que possuía asas de ouro, mas foi castigada pela deusa da sabedoria, Atena, por ter feito amor com o deus do mar, Poseidon. Como vingança, Atena a transformou em uma terrível criatura, um monstro ctônico do sexo feminino, com pele escamosa e cabeleira formada por serpentes. A Medusa tornou-se um perigo mortal e seus olhos, amaldiçoados, transformavam em estátua de pedra todos aqueles que a olhassem de frente.

[4] Chama-se de instalação a manifestação artística em que a obra de arte é o resultado de uma composição de objetos (elementos) organizados em determinado ambiente, em que o objetivo da linguagem artística é despertar sensações. Esse tipo de estratégia procura despertar no interlocutor a postura crítica no âmbito da estética e das ideias, além de conduzir o receptor para dentro da obra, fazendo com que ele reaja instintivamente a ela.

[5] Em seu livro Il Saggiatore (O Ensaiador), publicado em Roma em 1623.

[6] O conceito de “fluxo de consciência” foi cunhado por William James, no livro The Stream of Consciousness (1892) e se refere ao turbilhão de pensamentos na mente consciente, isto é, toda a gama de impressões, sensações, raciocínios que se desenrolam em nível superficial. Para James, há quatro características deste fluxo mental: 1 – cada estado tende a ser parte duma consciência pessoal; 2 – dentro de cada consciência pessoal os estados estão sempre mudando; 3 – cada consciência individual é sensivelmente contínua; e 4 – é interessada em algumas partes de seu objeto em detrimento de outras, e essas partes são escolhidas ou rejeitadas o tempo todo. O conceito se tornou uma técnica literária usada por escritores como James Joyce, Marcel Proust, Virginia Woolf, T. S. Eliot, Julio Cortázar, Clarice Lispector, Guimarães Rosa etc.








Katya Queiroz Alencar é Mestre em Estudos Literários pela UFJF, Doutora em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC/MG e Professora do Departamento de Comunicação e Letras da Unimontes. O ensaio aqui publicado é fragmento de sua tese de doutorado sobre Clarice Lispector defendida recentemente e publicada em livro neste momento pela editora Viseu sob o título de Pelas águas da Medusa: (ex) tradição, escrita e vanguarda em Água viva de Clarice Lispector, volume à venda no site da editora. As imagens são reproduções de fotografias de juventude de CL disponíveis na Internet sem crédito de autoria.